
O herói sem prêmio
13/12/2002 00h00minCarlinhos da Mata
Filho mais novo de D. Colotida, Zé Pereira era o melhor vaqueiro que todos ouviram falar. Tinha três irmãos. O mais velho também havia sido cavaleiro. Era tropeiro junto com seu pai, carregando boiada para todo canto. Hoje estavam aposentados, só cuidando de suas roças de milho e feijão.
Zé Pereira tinha um companheiro: seu cavalo Trovão. Era o melhor, só faltava falar, podia até colocar uma criança em cima dele que o serviço saía excelente. Mas nas mãos de Zé Pereira era diferente. Trovão e ele faziam o par perfeito, sabiam a hora certa de tudo. Não importava o tamanho do boi, as condições do tempo, se tinha um bom esteira ou não, eles eram os melhores.
Infelizmente naquela época, a vaquejada não era um esporte nacional com prêmios espetaculares. Eram bolões realizados por patrões em suas fazendas. Os prêmios até que eram bons pra região: variavam de sacos de mantimentos a arreios. Muito raramente alguns davam uma pequena quantia em dinheiro. Mas Zé Pereira não tinha patrão. Não gostava de receber ordens. Era contratado esporadicamente para fazer um serviço ou outro, buscar uma vaca parida no mato ou trazer uma boiada que estava desgarrada. Alguns tinham antipatia por ele, mas nunca podiam provar ou fazer nada contra ele. Era querido e defendido por todos. Muitas crianças queriam ser como ele. Forte, valente, e principalmente inteligente. Apesar de nunca ter ido à escola, seu pai o havia ensinado ler e a fazer contas. Pra ele já bastava. “O resto a vida ensina...” – dizia ele.Às vezes ficava semanas longe de casa, pois como também era festeiro, geralmente, onde tinha um arrasta-pé, Zé Pereira estava lá.
E foi numa destas festas que Zé Pereira começou a escrever seu fim. Ele já havia namorado quase todas filhas de patrões. Mas encontrou Ritinha e a paixão acendeu para os dois. Algumas semanas depois, a mãe de Ritinha percebeu: ela apareceu grávida. Os sinais já estavam evidentes, mas ela mesma não sabia. Era filha única e o xodó de Cel. Tenório, dono de quase metade de todas aquelas terras. Quando ele descobriu resolveu matar Zé Pereira. “Filha minha não casa com um pé rapado e vagabundo” – esbravejou.
Chamou então Zé Pereira para uma conversa. Na hora e local marcados, Zé estava lá. O Cel. perguntou a ele sobre o que fizera com sua filha na maior tranqüilidade, perguntou qual era sua intenção para com ela, e o avisou que iria ser pai, oferecendo-lhe um copo de conhaque forte. Zé Pereira se encheu de alegria, afinal iria poder se casar com sua paixão e seu pai nem se opôs, virou de uma vez o copo cheio. Cel. Tenório encheu de novo seguido de outra golada e pela terceira vez se repetiu. Ele precisava embebedá-lo, afinal, ele era muito forte e qualquer vacilo, poderiam perder a vida. Depois de ter tomado praticamente a garrafa toda, Cel. Tenório o abraçou, o segurou pelo pescoço e saíram uns vinte peões matando Zé Pereira a facadas e pontapés. Depois de morto, jogaram no meio do mato que era para os urubus terminarem o serviço. Um dos caras tentou montar Trovão, mas o cavalo o jogou longe, mordendo alguns e escoiceando outros. Mataram também Trovão, com um tiro bem na cabeça. Cavalo e cavaleiro estavam ali, jogados quase perto um do outro.
Chegando a notícia na cidade, muitos ficaram apavorados, D. Colotida quase morreu de tristeza, o padre incentivou a todos a fecharem suas lojas e bares em memória de Zé Pereira. O prefeito até tentou ir contra, afinal era um dos coronéis, mas teve de se render à maioria. Mas o castigo do Coronel veio até que ligeiro, sua filha morreu no parto, e sua mulher, morreu com uma picada de escorpião uma semana depois. Logo em seguida, D. Colotida, junto com toda a sua família, acompanhada pelo padre foi então buscar a menina, filha de Zé Pereira. O Coronel, que já não tinha muito gosto pela vinda da menina, a entregou. O coronel começou a ruir. Logo os outros coronéis começaram a saquear suas fazendas e a se apossar de suas terras, não demorou muito para que ele morresse sem nada.
Ergueram até uma estátua na cidade em homenagem à Zé Pereira. Imponente, montado em seu cavalo Trovão, bem na praça central. Sua filha, hoje corre nas vaquejadas e é ganhadora de muitos prêmios. E o mais interessante: há quem diga que em noite de lua cheia, daquelas que deixam as veredas bem clarinhas, se ouve um vaqueiro aboiando ou correndo em seu cavalo com uma bela moça na garupa.
Zé Pereira tinha um companheiro: seu cavalo Trovão. Era o melhor, só faltava falar, podia até colocar uma criança em cima dele que o serviço saía excelente. Mas nas mãos de Zé Pereira era diferente. Trovão e ele faziam o par perfeito, sabiam a hora certa de tudo. Não importava o tamanho do boi, as condições do tempo, se tinha um bom esteira ou não, eles eram os melhores.
Infelizmente naquela época, a vaquejada não era um esporte nacional com prêmios espetaculares. Eram bolões realizados por patrões em suas fazendas. Os prêmios até que eram bons pra região: variavam de sacos de mantimentos a arreios. Muito raramente alguns davam uma pequena quantia em dinheiro. Mas Zé Pereira não tinha patrão. Não gostava de receber ordens. Era contratado esporadicamente para fazer um serviço ou outro, buscar uma vaca parida no mato ou trazer uma boiada que estava desgarrada. Alguns tinham antipatia por ele, mas nunca podiam provar ou fazer nada contra ele. Era querido e defendido por todos. Muitas crianças queriam ser como ele. Forte, valente, e principalmente inteligente. Apesar de nunca ter ido à escola, seu pai o havia ensinado ler e a fazer contas. Pra ele já bastava. “O resto a vida ensina...” – dizia ele.Às vezes ficava semanas longe de casa, pois como também era festeiro, geralmente, onde tinha um arrasta-pé, Zé Pereira estava lá.
E foi numa destas festas que Zé Pereira começou a escrever seu fim. Ele já havia namorado quase todas filhas de patrões. Mas encontrou Ritinha e a paixão acendeu para os dois. Algumas semanas depois, a mãe de Ritinha percebeu: ela apareceu grávida. Os sinais já estavam evidentes, mas ela mesma não sabia. Era filha única e o xodó de Cel. Tenório, dono de quase metade de todas aquelas terras. Quando ele descobriu resolveu matar Zé Pereira. “Filha minha não casa com um pé rapado e vagabundo” – esbravejou.
Chamou então Zé Pereira para uma conversa. Na hora e local marcados, Zé estava lá. O Cel. perguntou a ele sobre o que fizera com sua filha na maior tranqüilidade, perguntou qual era sua intenção para com ela, e o avisou que iria ser pai, oferecendo-lhe um copo de conhaque forte. Zé Pereira se encheu de alegria, afinal iria poder se casar com sua paixão e seu pai nem se opôs, virou de uma vez o copo cheio. Cel. Tenório encheu de novo seguido de outra golada e pela terceira vez se repetiu. Ele precisava embebedá-lo, afinal, ele era muito forte e qualquer vacilo, poderiam perder a vida. Depois de ter tomado praticamente a garrafa toda, Cel. Tenório o abraçou, o segurou pelo pescoço e saíram uns vinte peões matando Zé Pereira a facadas e pontapés. Depois de morto, jogaram no meio do mato que era para os urubus terminarem o serviço. Um dos caras tentou montar Trovão, mas o cavalo o jogou longe, mordendo alguns e escoiceando outros. Mataram também Trovão, com um tiro bem na cabeça. Cavalo e cavaleiro estavam ali, jogados quase perto um do outro.
Chegando a notícia na cidade, muitos ficaram apavorados, D. Colotida quase morreu de tristeza, o padre incentivou a todos a fecharem suas lojas e bares em memória de Zé Pereira. O prefeito até tentou ir contra, afinal era um dos coronéis, mas teve de se render à maioria. Mas o castigo do Coronel veio até que ligeiro, sua filha morreu no parto, e sua mulher, morreu com uma picada de escorpião uma semana depois. Logo em seguida, D. Colotida, junto com toda a sua família, acompanhada pelo padre foi então buscar a menina, filha de Zé Pereira. O Coronel, que já não tinha muito gosto pela vinda da menina, a entregou. O coronel começou a ruir. Logo os outros coronéis começaram a saquear suas fazendas e a se apossar de suas terras, não demorou muito para que ele morresse sem nada.
Ergueram até uma estátua na cidade em homenagem à Zé Pereira. Imponente, montado em seu cavalo Trovão, bem na praça central. Sua filha, hoje corre nas vaquejadas e é ganhadora de muitos prêmios. E o mais interessante: há quem diga que em noite de lua cheia, daquelas que deixam as veredas bem clarinhas, se ouve um vaqueiro aboiando ou correndo em seu cavalo com uma bela moça na garupa.




