
A Lagoa Encantada
Eloi Teles Morais
Oh, Deus nosso pai celeste
o Regente do Universo
me concede inspiração
Com humildade eu te peço
quero contar uma estoria
se não falhar a memoria
usando o dom do meu verso.
O meu avô me contava
que o pai dele dizia
que quando era menino
perto do Crato existia
num sítio, um homem bondoso
honesto, religioso
mas direito não havia
João Carreiro era o seu nome
mãe Clarinda era a mulher
era um casal muito pobre
os dois viviam da fé
apesar de sua pobreza
mas a bondade, a nobreza
o amor, sobrava até.
João Carreiro, todo dia
antes da barra quebrar
trazia junta de bois
para no carro atrelar
e se metia nas brenhase
buscar carradas de lenhas
pra no engenho queimar.
Rapadura pra cidade
madeira pra construção
também legumes pra feira
as compras para o patrão
tudo trazia Carreiro,
bem alegre, prazenteiro
era feliz, no sertão.
E o seu carro de boi?
Era bonito, enfeitado,
nos mancas, belos gemidos
nas quebradas escutados
parecia um grito forte
pedindo a Deus , muita sorte
pro carro e os bois, coitados.
Havia perto de casa
uma lagoa pequena
de água limpa, tão clara
tão parada, tão serena
que a passarada cantando
vivia ali festejando
colorindo aquela cena.
Um dia disse Carreiro,
pra sua boa mulher:
você faça meu café
eu vou buscar uma carrada
de lenha lá na baixada
no sítio do seu Cazé.
Mãe Clarinda espantou-se:
mas João, isso é loucura!
Amanhã é o maior dia
que relata as Escrituras
Sexta-feira da Paixão
não faça isso, João
não seja cabeça dura!
Mas mulher eu prometi
ao compadre Zé Ferreira!
que Sábado estaria aqui,
toda, toda sua madeira.
Não me lembrei, prometi
e agora resolvi
cumprir é minha maneira!
Deus sabe me perdoar
nada vai acontecer
eu prometi o trabalho
e agora vou fazer.
Vamos, precisa ter fé
cedinho, faça o café
antes do dia nascer.
Pode ficar descansada
pois Deus ama a quem trabalha
quem derrama o seu suor
a ajuda de Deus não falha
eu vou buscar a madeira,
ganho o dinheiro da feira
e nada disso trapalha.
A mulher ficou calada
não quis comentar o fato
Mas disse consigo mesma:
Pra que se embrenhar no mato?
Mas o marido teimoso
apesar de religioso
queria cumprir o trato.
E a alta madrugada
Carreiro com bom humor
traz os bois, prepara o carro
coração cheio de amor
depois de tomar café
se despede da mulher
que diz: Vai... com o Senhor!
E saiu o João Carreiro:
"Hê boi; Hê boi; Hê boê...
Vai pintado, bicho lerdo...
Senão eu furo você.
Vamo, mimoso, boi manso
ói as peda, oi os balanço
Hê boi; Hê boi; Hê boê"
E lá na frente, a lagoa
ia o carro travessar
era rasa, e os bois já tinham
costume de ali passar
o carro vai travessando
e os mancares molhando
pararam até de cantar.
E foi ficando fundo...
Fundo! Mais fundo!! Sumiu!!!
Meu Deus, cadê o Carneiro?
Mas... cadê? Quem foi que viu
e a notícia correu
tudo desapareceu
Parece que a terra abriu?
Mas como? A lagoa é rasa!
Rasinha, todos diziam.
E o carro? E os bois?
Os cablocos repetiam.
E João Carneiro encantou-se
ele sumiu? Acabou-se?
Espantados se benziam.
A notícia se espalhou
ali, por todo recanto.
A estoria do Carneiro
como foi o seu encanto
pertinho da sua casa?
Numa lagoa tão rasa?
Terá sido o Dia Santo?
O que houve, ninguém sabe
como foi... muito pior
só se sabe que Carreiro
aquele pobre de Jó
por exemplo, ou por castigo
levou carro e bois consigo
na Sexta Feira Maior.
O tempo, foi se passando
mais de um século já se foi
que Carreiro se encantou
ele, o carro e os bois.
Ainda é comentada
essa Lagoa Encantada
com tanto tempo depois.
Hoje os mais velhos conhecem
Essa estoria tão narrada
até o nome do sítio
hoje é Lagoa Encantada
mas quem passa faz esbarro
lembra de João e seu sarro
lembra aquela madrugada.
Nossa vida tem misterios
que só Deus sabe quais são
quantas lagoas existem
por esse nosso sertão?
e quanta gente exemplada
quanta Lagoa encantada
quantos carros, quantos Joãos.
Dizem que todos os anos
Sexta Feira da Paixão
se vem o gemer das rodas
dum carro de bois então
é João Carreiro, passando
no seu carro, carregando
a madeira do perdão.
o Regente do Universo
me concede inspiração
Com humildade eu te peço
quero contar uma estoria
se não falhar a memoria
usando o dom do meu verso.
O meu avô me contava
que o pai dele dizia
que quando era menino
perto do Crato existia
num sítio, um homem bondoso
honesto, religioso
mas direito não havia
João Carreiro era o seu nome
mãe Clarinda era a mulher
era um casal muito pobre
os dois viviam da fé
apesar de sua pobreza
mas a bondade, a nobreza
o amor, sobrava até.
João Carreiro, todo dia
antes da barra quebrar
trazia junta de bois
para no carro atrelar
e se metia nas brenhase
buscar carradas de lenhas
pra no engenho queimar.
Rapadura pra cidade
madeira pra construção
também legumes pra feira
as compras para o patrão
tudo trazia Carreiro,
bem alegre, prazenteiro
era feliz, no sertão.
E o seu carro de boi?
Era bonito, enfeitado,
nos mancas, belos gemidos
nas quebradas escutados
parecia um grito forte
pedindo a Deus , muita sorte
pro carro e os bois, coitados.
Havia perto de casa
uma lagoa pequena
de água limpa, tão clara
tão parada, tão serena
que a passarada cantando
vivia ali festejando
colorindo aquela cena.
Um dia disse Carreiro,
pra sua boa mulher:
você faça meu café
eu vou buscar uma carrada
de lenha lá na baixada
no sítio do seu Cazé.
Mãe Clarinda espantou-se:
mas João, isso é loucura!
Amanhã é o maior dia
que relata as Escrituras
Sexta-feira da Paixão
não faça isso, João
não seja cabeça dura!
Mas mulher eu prometi
ao compadre Zé Ferreira!
que Sábado estaria aqui,
toda, toda sua madeira.
Não me lembrei, prometi
e agora resolvi
cumprir é minha maneira!
Deus sabe me perdoar
nada vai acontecer
eu prometi o trabalho
e agora vou fazer.
Vamos, precisa ter fé
cedinho, faça o café
antes do dia nascer.
Pode ficar descansada
pois Deus ama a quem trabalha
quem derrama o seu suor
a ajuda de Deus não falha
eu vou buscar a madeira,
ganho o dinheiro da feira
e nada disso trapalha.
A mulher ficou calada
não quis comentar o fato
Mas disse consigo mesma:
Pra que se embrenhar no mato?
Mas o marido teimoso
apesar de religioso
queria cumprir o trato.
E a alta madrugada
Carreiro com bom humor
traz os bois, prepara o carro
coração cheio de amor
depois de tomar café
se despede da mulher
que diz: Vai... com o Senhor!
E saiu o João Carreiro:
"Hê boi; Hê boi; Hê boê...
Vai pintado, bicho lerdo...
Senão eu furo você.
Vamo, mimoso, boi manso
ói as peda, oi os balanço
Hê boi; Hê boi; Hê boê"
E lá na frente, a lagoa
ia o carro travessar
era rasa, e os bois já tinham
costume de ali passar
o carro vai travessando
e os mancares molhando
pararam até de cantar.
E foi ficando fundo...
Fundo! Mais fundo!! Sumiu!!!
Meu Deus, cadê o Carneiro?
Mas... cadê? Quem foi que viu
e a notícia correu
tudo desapareceu
Parece que a terra abriu?
Mas como? A lagoa é rasa!
Rasinha, todos diziam.
E o carro? E os bois?
Os cablocos repetiam.
E João Carneiro encantou-se
ele sumiu? Acabou-se?
Espantados se benziam.
A notícia se espalhou
ali, por todo recanto.
A estoria do Carneiro
como foi o seu encanto
pertinho da sua casa?
Numa lagoa tão rasa?
Terá sido o Dia Santo?
O que houve, ninguém sabe
como foi... muito pior
só se sabe que Carreiro
aquele pobre de Jó
por exemplo, ou por castigo
levou carro e bois consigo
na Sexta Feira Maior.
O tempo, foi se passando
mais de um século já se foi
que Carreiro se encantou
ele, o carro e os bois.
Ainda é comentada
essa Lagoa Encantada
com tanto tempo depois.
Hoje os mais velhos conhecem
Essa estoria tão narrada
até o nome do sítio
hoje é Lagoa Encantada
mas quem passa faz esbarro
lembra de João e seu sarro
lembra aquela madrugada.
Nossa vida tem misterios
que só Deus sabe quais são
quantas lagoas existem
por esse nosso sertão?
e quanta gente exemplada
quanta Lagoa encantada
quantos carros, quantos Joãos.
Dizem que todos os anos
Sexta Feira da Paixão
se vem o gemer das rodas
dum carro de bois então
é João Carreiro, passando
no seu carro, carregando
a madeira do perdão.




